Omáua, A Menina Que Mora Sobre Os Rios
Originárias é uma antologia indígena feminina voltada ao público infanto-juvenil, de extrema importância nos ambientes escolares por contribuir para a formação cultural e social do indivíduo.
Omáua, A Menina que Mora Sobre os Rios é um conto de Eliane Potiguara, sobre o povo Omágua-Kambeba, que está territorializado por todo o Rio Solimões, no estado do Amazonas. São conhecidos assim pela prática de remodelação do crânio¹ , já que “omágua” significa "cabeça de homem” e “kambeba”, “cabeça-chata”.
No conto, Tia Alzira conta a história de Omáua para as crianças. Explica que o povo Omáua, hoje conhecido como Omágua-Kambeba, fala uma língua da família tupi-guarani e que, certo dia, os holandeses vieram de longe, interessados no que era dos Omágua. Diz que eram ambiciosos, queriam tudo só para eles, mas que, atualmente, não querem mais o mal das crianças, pois há outras formas de conquistar riquezas.
Uma indígena e um holandês se casaram e tiveram uma filha que morreu logo após nascer. A mãe chorou demais e adormeceu à margem do Rio Amazonas, sonhando que suas lágrimas preenchiam o rio e provendo toda a região. Então, Omáua apareceu, uma filha espiritual do rio, que mora no coração de todos. No sonho, conversou com sua mãe, que quando despertou se viu emocionada e esperançosa, apoiada por seus ancestrais.
O conto representa a força ancestral e feminina para as comunidades indígenas, assim como sua profunda relação com a natureza. Analisando o modelo patriarcal da sociedade nos dias atuais, é significativo trabalhar contos como esse para desconstruir a imagem estrutural inferior da mulher. As raízes ancestrais que valorizam e respeitam a figura feminina em todos os seus aspectos, como mães, irmãs, companheiras, filhas e conselheiras, sejam elas jovens ou idosas, nos mostram o quão valiosa é a união das mulheres e a vivacidade que isso nos proporciona.
A relação dos personagens com a natureza também mostra que o cuidado com o meio-ambiente é um comportamento, além de responsabilidade, de carinho com nossas origens. Afinal, utilizamos diversos recursos naturais para manter nosso estilo de vida e, na maioria das vezes, de forma irresponsável. Na história é perceptível o abraço dos rios, das árvores, da Terra em si, da espiritualidade para os sofrimentos da mãe, que foi acolhida e fortificada por seus ancestrais.
Os aprendizados que são cultivados neste conto, no ambiente escolar, se tornam relevantes para compreender a cultura dos povos indígenas e seu forte senso de respeito para com a natureza e os membros de sua comunidade.
1 A remodelação de crânio dos Omágua-Kambeba consiste na prática de deformar o crânio das
crianças recém-nascidas, utilizando faixas de algodão e uma tábua feita de cana-do-rio. As tábuas
eram posicionadas na frente e atrás da cabeça, com pequenas almofadas de algodão para não
machucar a criança. A amarração ia dos olhos até o cabelo, fazendo com que a cabeça crescesse de
forma longa e chata.
A remodelação era ligada à defesa, sobrevivência e diferenciação do povo.
Conforme o tempo, apertavam mais a faixa para que o crânio fosse moldado conforme o idealizado.
O ritual deixou de ser praticado principalmente pela influência da Igreja e da colonização dos
espanhóis.