Marcelino Freire
Descrição:
Marcelino Freire é um renomado escritor e contista brasileiro, conhecido por sua escrita visceral focada nas vozes marginalizadas da sociedade. Nascido em 1967, em Sertânia, Pernambuco, atualmente reside em São Paulo e coordena oficinas literárias desde 2003. Seu livro "Amar é Crime" foi originalmente publicado em 2011 e ganhou cinco novos contos em 2015. O autor é um dos mais célebres da literatura contemporânea do país.
Texto produzido pelos alunos:
União Civil
Em "Amar é Crime", Marcelino Freire presenteia os leitores com o conto União Civil, uma narrativa instigante que mergulha nas complexidades da criação literária. Nesse conto, o autor utiliza a metalinguagem de forma magistral para oferecer sua visão sobre o nascimento de uma história. O narrador-personagem, o escritor Álvaro, encontra-se em meio a uma palestra quando é subitamente envolvido por uma enxurrada de lembranças do passado. Essas memórias são desencadeadas pelo simples ato de observar dois homens empurrando um carrinho de bebê. A partir desse ponto, Álvaro revela sua própria história de infância e sua encenação de casamento com Paulo, ocorrida quando ambos tinham apenas nove ou dez anos de idade. O livro desafia as fronteiras temporais ao alternar entre a palestra de Álvaro e suas memórias, criando uma narrativa não linear que representa o fluir dos pensamentos do protagonista enquanto ele discute a arte da escrita de contos. Essa abordagem única confere à obra uma profundidade expressiva e poética que toca em temas contemporâneos de forma sensível e relevante.
À medida que Álvaro se aprofunda em suas memórias, o leitor é transportado para a encenação do casamento dele com Paulo, na qual a heteronormatividade já podia ser percebida por eles em tão tenra idade. O protagonista reflete sobre a importância conferida à realização do casamento em uma igreja, o segredo envolto na união e adquire um tom de melancolia ao lembrar-se de como a união chegou ao fim e de como sua vida se desdobrou a partir desse ponto. O leitor se sente desafiado a refletir profundamente sobre esses temas e a imaginar outros desfechos para a história de Álvaro e Paulo, ao questionar o que acontece após o ponto final.
Além disso, o conto oferece a visão do escritor sobre como ocorre o nascimento de uma história. Segundo ele, escrever é o ato de organizar sentimentos perdidos, tornando-se, assim, um ato de resistência. A escrita permite que compartilhemos nossa visão de mundo, o que é crucial em um contexto onde as ideias heteronormativas predominam e as vivências LGBTQIAPN+ enfrentam tanta opressão. Contos como União Civil desempenham um papel vital ao estimular a reflexão sobre esses temas complexos.
Assim como um conto nasce antes de ser escrito, uma luta nasce antes de ser travada.
Produzido por: Ariel Escobar de Souza
Obra trabalhada: União Civil (Amar é Crime)
Sonhos, esperanças e finais trágicos: conhecimento e reconhecimento das raízes do Brasil pela análise de “Nossos Ossos”, de Marcelino Freire.
Depois de se consolidar como um dos mais influentes escritores de contos brasileiros, Marcelino Freire publica seu primeiro romance “Nossos Ossos” em 4 de novembro de 2013, trazendo uma narrativa não-linear, oralizada e teatral sobre as verdadeiras raízes do Brasil. Por meio de capítulos nomeados por vísceras e ossos, a obra monta uma narrativa investigativa sob a ótica de Heleno - dramaturgo, nordestino e homossexual que busca um final digno para um de seus boys, Cícero, morto na Estação da Luz.
De início, penso ser importante abordar a construção, em “Nossos Ossos”, de São Paulo como cidade de sonhos, esperanças e finais trágicos. Nesse contexto, a figura de Heleno se mostra ainda mais efetiva por ser retirante nordestino, nascido em uma família pobre, mas que consegue sucesso migrando para o sudeste. A história do protagonista, entretanto, entra em contraste com toda a construção de espaço da megalópole. A tendência social vigente na obra é marcada pela precariedade e miséria de populações já marginalizadas, vistas pela figura dos michês - representantes do final trágico para o sonho de melhores condições de vida. Assim, fica marcada a perdura de um ciclo de segregação e mobilidade social estanque para indivíduos destinados à miséria pela sociedade.
No mais, levanto a importância de analisar o título da obra, tendo em vista a lógica social tratada no parágrafo anterior. “Nossos Ossos”, em uma das suas muitas interpretações, diz respeito às raízes do Brasil, aos diferentes pensamentos, práticas e tendências mineralizadas na história da nação e que se mostram ainda vigentes na contemporaneidade. Fora da análise geográfica, a questão da LGBTQIAP+fobia estrutural é um dos alicerces da narrativa. Em um país em que o casamento homoafetivo foi reconhecido como entidade familiar apenas em 2011 - e que é constantemente ameaçado por tendências conservadoras homofóbicas - o cenário social construído foi propício para a consolidação do fracasso desses indivíduos, vítimas da violência ao diferente, prática hegemônica desde o período colonial.
Por fim, afirmo a importância da leitura de “Nossos Ossos” e de Marcelino Freire, no geral. Sua escrita - com marcas do português falado - torna acessível o conhecimento e reconhecimento das mazelas estruturais da nação brasileira que permitem a eterna repetição de um ciclo de miséria a indivíduos marginalizados.
Produzido por: Thales Partel e Flávio Amorim
Obra trabalhada: Nossos Ossos
O Amigo Do Rei
O conto de Marcelino Freire aborda a perspectiva de vida de um menino poeta, que quebra as expectativas hegemônicas sociais referentes aos gostos e comportamentos masculinos. Seu pai insiste em ensiná-lo sobre futebol, como uma forma de reforçar o ideal de masculinidade, apoiado pela mãe. O filho contrapõe as imposições e continua com o interesse por literatura utilizando como argumento os próprios jogadores “craques” citados pelo pai, dizendo que Pelé foi um compositor, por exemplo.
A ignorância dos pais relacionada aos diferentes tipos de arte e identidades sociais gera um conflito e afastamento familiar, tendo em vista a falta de compreensão pelos interesses e vivências do filho. Assim, vemos o diálogo entre eles sendo substituído por silenciamento.
O pai busca a professora do filho para expressar seus incômodos, e ouve que o menino gosta de Manuel Bandeira e poesia. Nesse momento, vemos como a falta de acesso à cultura e educação forma sujeitos intolerantes ao desconhecido e com visões limitadas do mundo. Além disso, a preocupação dele com a situação financeira da família reflete diretamente na projeção de desejos para o futuro do menino.
“[...] Eu quero que você melhore a vida da gente. [...]
Para que serve poesia? Quem colocou isso no seu juízo? Não acha bonito o futebol? O menino achava bonito, sim, mas não era o tipo de beleza que ele queria.”
Produzido por: Nathyara da Paixão
Obra trabalhada: O Amigo Do Rei
